Graças aos progressos fulminantes da informação, o mundo fica mais perto de cada um, não importa onde esteja. O outro, isto é, o resto da humanidade, parece estar próximo. Criam-se, para todos, a certeza e, logo depois, a consciência de ser mundo e de estar no mundo, mesmo se ainda não o alcançamos em plenitude material ou intelectual.O próprio mundo se instala nos lugares, sobretudo as grandes cidades, pela presença maciça de uma humanidade misturada, vinda de todos os quadrantes e trazendo consigo interpretações variadas e múltiplas, que ao mesmo tempo se chocam e colaboram na produção renovada do entendimento e da crítica. Assim o cotidiano de cada um se enriquece, pela experiência própria e pela do vizinho, tanto pelas realizações atuais como pelas perspectivas de futuro. As dialéticas da vida nos lugares mais enriquecidas são paralelamente o caldo de cultura necessário à proposição e ao exercício de uma nova política.
Funda-se, de fato, um novo mundo. Para sermos ainda mais precisos, o que, afinal, se cria é o mundo como realidade histórica unitária, ainda que ele seja extremamente diversificado.
Ousamos desse modo, pensar que a história do homem sobre a terra dispõe afinal das condições objetivas, materiais e intelectuais, para superar o endeusamento do dinheiro e dos objetivos técnicos e enfrentar o começo de uma nova trajetória. Aqui, não se trata de estabelecer datas nem de fixar momentos de folhinha, marcos num calendário. Como o relógio, a folhinha e o calendário são convencionais, repetitivos e historicamente vazios. O que conta mesmo é o tempo das possibilidades efetivamente criadas, o que à sua época, cada geração encontra disponível, isso a que chamamos de tempo empírico, cujas mudanças são marcadas pela irrupção de novos objetivos, de novas ações e relações e de novas idéias. (Milton Santos).
CULTURA DO BRASIL, PONTO A PONTO, É UM BLOCO REVOLUCIONÁRIO.

Tudo indica que o MinC buscará mais ações voltadas ao mercado do que reflexões sobre a cultura da sociedade brasileira. Cada vez mais distante dos diálogos com o povo brasileiro, o MinC de Ana de Hollanda se afina com as consultorias movidas pelo conservadorismo e pela seletividade, tanto em escala patrimonial quanto em seu conceito enviesado de democracia cultural.
Vemos publicadas em grandes jornais as reveladoras intenções da ministra e seus limites endereçados a um ministério particular que parece a todo custo buscar uma solução para que as obras individuais, frequentemente associadas, sobretudo à indústria fonográfica, retomem sua musculatura financeira perdida com a quebra da indústria cultural. Tudo isso longe da complexidade e dos instrumentos registrados na fisionomia e na escala cultural produzida pela própria sociedade.
Os movimentos populares protagonizados pelas camadas mais pobres da população no governo Lula buscaram informações generalizadas com o objetivo de disponibilizar outras possibilidades de entendimento da cultura brasileira em seu cotidiano e em seu território. Isso criou uma extraordinária interfecundação nas camadas sociais. Agora, com esta nova gestão, penso que descobrimos a falta de sentido da nossa cultura como verdadeira extensão continental. As promessas da engenharia neoliberal de cultura produzem uma mutação para o domínio, sobretudo das multinacionais que construíram um mundo confuso e perverso com suas múltiplas formas de fazer da cultura um negócio, e neste negócio disponibilizar um cabedal de racionalidade dominante que defende a ideia individual como sistema central de idéias e informações autorizadas apenas à visão histórica do mercado cultural corporativo. Por isso, em menos de sessenta dias, substanciais manifestações inflamaram os espíritos contra o pensamento fundado pelas políticas em questão da gestão atual do Ministério da Cultura.
O MinC hoje, ouvindo as vozes dos morcegos do Ecad, parece entender de cabeça pra baixo a cultura de um país como o Brasil que vive uma extraordinária mutação tecnológica. Ana de Hollanda, ao que tudo indica, quer colocar a cultura não a serviço dos homens, mas de uma fábula econômica criada pelo endeusamento do reino do dinheiro.
Ana de Hollanda, assim, volta à ideia da “cultura de berço” e do Estado mínimo da era FHC e refunda no MinC a privatização da cultura como ideia de categoria, marginalizando, principalmente a pobreza brasileira, compartimentando e fragmentando o nosso conceito de cultura para dar soberania à “intelectualidade” neoliberal de cultura.
Neste novo sentido inverso ao da própria sociedade, o MinC demonstra não querer enxergar a existência de cada pessoa e de cada lugar do Brasil em um encontro do novo engenho humano construído pelos revolucionários pontos de cultura e cultura digital. Radicalmente diferente daquele momento mágico que a cultura do Brasil recentemente viveu, o que podemos chamar de antropofagismo institucional, na era Lula, na gestão Gil e Juca.
Hoje, a base material com a qual Ana de Hollanda quer se instrumentalizar é a do imperativo hegemônico, a do imperialismo e da concentração do capital. Esta parece ser a nova ordem “intelectual” que busca restaurar aos medalhões da indústria o brilho de suas coroas.
Agindo assim, o Ministério da Cultura finca, como numa guerra de propagandas, em sua sede a bandeira da indústria como se fosse uma corretora fiscal com inflexibilidade física e moral, aonde o MinC extrai recursos da sociedade para entregar nas mãos da cultura corporativa. Podemos dizer que a atual gestão do MinC seguirá à risca o sistema da grande mídia como vetor dominante de suas realizações, impondo o velho pensamento único como política pública, impossibilitando cada vez mais o encontro do Estado com a sociedade, o que vinha sendo construído nos últimos oito anos.
O Ministério da Cultura parece querer ser meeiro do mercado, sobretudo do Ecad e seus tentáculos multinacionais. Por isso, quando a ministra retirou o Creative Commons do site do Ministério, colocou na geladeira os pontos de cultura e decapitou a SID (Secretaria da Identidade e Diversidade Cultural), o MinC, sob os interesses da indústria, tenta impedir o avanço de um bloco revolucionário que quer construir no Brasil um novo mundo contemporâneo, um novo universalismo com interpretação multidisciplinar que realça a ideologia e a inteligência da sociedade brasileira.
A CULTURA COMO SONHO BRASILEIRO DE UM NOVO HUMANISMO
“Agora estamos descobrindo o sentido de nossa presença no planeta, pode-se dizer que uma história universal verdadeiramente humana está, finalmente, começando. A mesma materialidade, atualmente utilizada para construir um mundo confuso e perverso, pode vir a ser uma condição de construção de um mundo mais humano. Basta que se completem as duas grandes mutações ora em gestação: a mutação tecnológica e a mutação fisiológica da espécie humana.
A grande mutação tecnológica é dada com a emergência das técnicas da informação, as quais – ao contrário das técnicas das máquinas – são constitucionalmente divisíveis, flexíveis e dóceis, adaptáveis a todos os meios e culturas, ainda que seu uso perverso atual seja subordinado aos interesses dos grandes capitais. Mas, quando sua utilização for democratizada, essas técnicas doces estarão a serviço do homem.
Muito falamos hoje nos progressos e nas promessas da engenharia genética, que conduziriam a uma mutação do homem biológico, algo que ainda é do domínio da história da ciência e da técnica. Pouco, no entanto, se fala das condições, também hoje presentes, que podem assegurar uma mutação fisiológica do homem, capaz de atribuir um novo sentido à existência de cada pessoa e também do planeta”. (Milton Santos).
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